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A Lenda da Terra da Lâmpada

...Conta-se ,então, que só uma rica Custódia de ouro - que hoje ainda existe –e uma valiosíssima Lâmpada (candeeiro do tecto) de prata se salvaram ,porque um tal Malaquias -O Raposo- , chegando à igreja antes da soldadesca francesa, as levou consigo e as enterrou. Só passados muitos anos, vendo que o perigo tinha então passado, resolveu desenterrá-las para as entregar ao Prior, que muito agradecido pela esperteza do acólito, logo mandou preparar grande festa para celebrar o acontecimento do retorno das valiosas peças ,festa que ,anunciada pelos párocos das redondezas prometia foguetório de arromba, como era costume ,o que fez acorrer á Vila muitos estranhos para admirarem os tesouros que voltavam a ser expostos .
Andara o povo em grande folgança, havia três dias , com a Igreja toda «aperaltada com vestes de gala»para mostrar as relíquias a quantos as quisessem admirar ,um mar de gente .
No final da festarola , era já segunda feira ,dia para estas gentes voltarem à labuta diária – depois da missa da madrugada , ainda o sol não nascera, na Igreja apenas algumas beatas que ouvida a missa, ficaram a fazer as suas rezas -e palrando - esperando pela missa seguinte da manhã ,que «duas sempre reconfortavam mais do que uma só » .Como eram conversadeiras, daquelas que todas as tardinhas vinham ao« rebate» contar as «últimas» , aproveitavam aqueles momentos para pôr a conversa em dia ,pois a festa afastara-as daquele convívio diário da má língua, onde falavam «disto e daquilo… desta ou daquela –de toda a gente! do sitio, pois que o tempo dava para isso, era tanto que ainda crescia para rezar um pai nosso e três avé marias ».
-Oi.. chopa!- olha para quem entrou… –disse às tantas a Maria Calatró da Malhada, interrompendo a conversa, virando-se para a Josefa do Arnal, ao tempo em que indicava dois indivíduos que ,de escada na mão ,com umas cordas aos ombros, tinham entrado na Igreja, onde só havia a luz das velas e as das lamparinas da majestosa Lâmpada . Tinham parado debaixo da mesma , fazendo um ar de espanto, dizendo um para o outro em voz alta, para que as «beatas» ouvissem :
- Ora vai-te …que raio de negócio fizemos… .Quem é que a há-de limpar por semelhante preço?! …dizia …o mais baixote, parecendo arrependido com o negócio

Responde o outro :
-Bem… já que justamos o preço , agora não há nada a fazer …Toca a baixá-la que se faz tarde
E se melhor o disse, mais rápido o fez : pondo mãos á obra subiu a escada e arriou a Lâmpada perante o olhar «especado » da Josefa e amigas , logo a metendo num saco saindo tranquilamente da igreja, de escada às costas …incluindo o saco .
-Estais a ver …«chopas», como o Senhor prior manda tratar das coisas da Igreja para esta luzir ?!…diz a Josefa Carqueja para a Calatró …e agora « inda hás-de dizer que o «home» nem prás novenas serve . És uma mal «dizente» …raios !-que ainda hás-de ir« assar» ao fundão do inferno …«Morrendas se não falendas» –mulherio de Satanás
Tocadas as sete badaladas da manhã , o Prior lá veio com o sacristão para rezar a segunda missa do dia . É então que a Calatró , que era esperta e já estava desconfiada de tanto cuidado do prior, pois no seu entender ”não era «arrais» p’ra tão grande barca”, lhe salta ao caminho e diz :
-oh!... senhor Prior .. tanta pressa para quê( ?!) santo Deus …,a limpeza podia esperar mais um« poiquinho» e acabar-se a festa com a nossa lâmpada, cá ?
-Que limpeza estás tu a dizer ?.. ,oh mulher!…e de que Lâmpada…está para aí a falar?! responde-lhe o padre João dos Mártires.
-A que o senhor Prior mandou «alimpar» - «hom’ essa» !- que estes olhos que o chão hão-de comer viu, ali … e « q’uinda» agora a levaram ,a mando de V. Reverência » …responde a Calatró apontando para o tecto vazio da igreja .
Foi então que o Prior olhou para o sitio onde era suposto estar a Lâmpada e, vendo-o vazio, de olhos esbugalhados, gritou :
-Ah ladrões que me roubaram… …e, vermelho como um «pilado da praia » logo se «arreia» das pernas ,caindo para o lado…
-Ide depressa buscar« auga» da benta …que o pobre homem vai-se … grita a Luísa dos Sete Carris para as restantes ,amparando o pobre o Prior nos seus braços de «moçoila pescadeira» .
-Que vá… «olhendas»… é como a Lâmpada ,«assome-se» que é um ar que lhe deu …logo diz a Calatró que não perdoava ao Prior ,tê-la um dia mandado para casa onde disse, tinha mais que fazer que estar ali sentada no rebate da Igreja á espera da missa da madrugada .
E logo a Calatró , acrescenta :
-q’uinté» tenho mais pena da Lâmpada que do «corvo » que não faz falta aos filhos, que não tem ,referindo-se ao pobre abade que , pouco a pouco , depois de «rebaptizado »pela Josefa, começava a dar acordo de si.
-Ai! … filhas …diz a Luísa …desta vez nem o Raposo nos vale !!!
Em Ílhavo ,durante três dias ,os sinos dobraram a finados, por ordem do Prior João .
;tantos… quantos os da festa.
A Lâmpada – essa - levada pelos larápios levou um sumiço …Até hoje …
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Já sabes : quando quiseres fazer corar de vergonha um «ílhavo», basta dizeres –lhe :-
«T’imbora» homem …que és da Terra da Lâmpada » …

Fonte: Terra da Lampada

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